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Foi em Itajiba, interior de Minas Gerais, que o Mestre nasceu. Aos 13, tomou o rumo para BH e aqui começou sua formação na universidade da rua. Foi vendedor de mexerica, picolé e loteria, além de engraxate. Em 1975, criou enfim sua obra-prima, a revista em quadrinhos “Celton”, que mais tarde chegaria à marca de 1 milhão de exemplares vendidos e seria homenageada na 4ª Edição do Festival Internacional de Quadrinhos.

 

Rapadura é doce, mas não é mole. Antes de se tornar figura folclórica da capital mineira, Lacarmélio passou poucas e boas para conseguir viver de suas publicações. Na década de 80, rejeitado pelas editoras, ele financiou sem lucros a revista. E como o buraco é sempre mais fundo do que a gente pensa, o autor se endividou com as gráficas e ficou 6 anos fora desse mercado.

 

Multi-empreendedor, multi-funcional e multi-língue, Lacarmélio se exilou em Nova York, onde trabalhou de garçom e tocou violão nas estações de metrô para sobreviver. Quando voltou, pagou as últimas dívidas com a gráfica e se estabeleceu em um emprego formal por alguns anos. Por sorte, sua jornada não acabou aí.

 

O Retorno de Jedi Celton

 

Não feliz com seu emprego, Lacarmélio respondeu ao chamado das ruas. Reformulou o planejamento de seu negócio, deixou os bares e faculdades, seus antigos pontos de vendas, e se estabeleceu nos sinais, reconhecendo os engarrafamentos como um nicho a ser explorado. Suas histórias, antes influenciadas por heróis da Marvel e da DC Comics, foram repensadas e se tornaram locais, com referências geográficas, culturais e históricas de Belo Horizonte. Como um verdadeiro Cool Hunter, foi se atualizando quanto aos assuntos em pauta e reconhecendo oportunidades no mercado.

 

Hoje, reconhece-se de longe a figura do Mestre - sempre com seu terno amarelo escrito “Leia Celton” e segurando uma placa anunciando o seu produto entre os carros. O nosso mito acabou ficando grande demais para BH. Por isso, expandiu seu alcance e se exportou para São Paulo e para o Rio de Janeiro.

 

“Eu mantenho comigo a idéia de que as pessoas sempre prestam atenção numa coisa em movimento, ao invés de estática. Eu nunca chego na janela oferecendo a minha revista. Eu criei uma forma de vender: eu apenas fico no meio dos carros, segurando uma placa que oferece o produto. Quando me chamam, já é para comprar revista”.

 

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KOTLER LATE SHOW

O entrevistado de hoje

- Ele já chegou à marca de 1 milhão de exemplares vendidos, foi homenageado na 4ª Edição do Festival Internacional de Quadrinhos e hoje já é quase uma figura folclórica de Belo Horizonte.

 

Se você mora na capital mineira, provavelmente já viu este artista correndo entre os carros, segurando uma enorme placa, vestindo um terno amarelo e vendendo uma revista feita por ele mesmo.

 

Às vezes, ele se aventura também nas ruas de São Paulo e, mais recentemente, começou a vender também no Rio de Janeiro.

 

Senhoras e senhores, com vocês, Lacarmélio Alfeo de Araújo, o autor de "Celton". 

 

Ainda não sabe quem é?

A vida de Lacarmélio parece estar atrelada à rua desde sempe. É interesante observar como todas suas experiências de uma vida bastante movimentada retornam como aprendizado e definem sua atual profissão. Ligando os pontos de forma heróica e com um desenho de traço talentoso.

Década de 70

Década de 80

Década de 90

Tudo começou em 1972, quando Lacarmélio tinha apenas 13 anos.

 

Ele chegou com sua família em Belo Horizonte à procura de melhores oportunidades. Aqui começou sua formação na universidade da rua.

Foi vendedor de pastel, mexerica, picolé e doce, além de engraxate. 

 

Foi em 1981 que Lacarmélio publicou "Celton" pela primeira vez.

 

Ele distribuiu as revistas pelas bancas, mas não vendeu quase nada. Acabou tendo que pegar um empréstimo no banco para pagar as gráficas. Por questão de sobrevivência, voltou às ruas para vender sua obra em barzinhos, o que também não teve bons resultados na época. 

 

A convite de uma das gráficas, começou a trabalhar como designer e, com esse cargo, conseguiu sustentar a revista. Ainda assim continuou endividado na década de 90 e acabou indo para Nova York, onde inicialmente trabalhou como assistente de garçom. Vendo que não estava ganhando o bastante, comprou um violão e foi tocar no metrô da cidade e lá conseguiu seu sustento. 

 

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Coffee  break musical. Aumentem o volume!

Pronto, agora vamos ao que interessa

A vida de Lacarmélio parece estar atrelada à rua desde sempe. É interesante observar como todas suas experiências de uma vida bastante movimentada retornam como aprendizado e definem sua atual profissão. Ligando os pontos de forma heróica e com um desenho de traço talentoso.

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DO GREGO, ΣΤΡΑΤΗΓΙΚΗ

DO INGLÊS, STRATEGY 

DO FRANCÊS, STRATÉGIE

Leia Celton

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Tudo o que Lacarmélio fala no vídeo é verdade - a gente só colocou numa linguagem meio Vale do Silício pra parecer mais convincente.

Estratégias rua afora 

Se o professor Ricardo Veiga nos permite, vamos citá-lo mais uma vez: “existe sabedoria independente da formação acadêmica. Principalmente no comércio.”

 

À medida que os ambulantes são capazes de se reinventarem, também reinventam o mundo ao seu redor. Conseguem não apenas se adaptar passivamente, mas também responder aos acontecimentos cotidianos que os afetam. Afinal, a própria informalidade não é, por si só, uma resposta e reinvenção à formalidade?

 

As estratégias deles costumam ser mais naturais, frutos das experiências que acumulam durante toda a vida a partir de cada contato feito nas ruas. O que deixa o negócio profissional indissociável do lado pessoal.

 

Suas estratégias são facilmente alteradas ou descartadas caso não cumpram suas funções comerciais, já que nenhuma convenção maior os obriga a manter qualquer estrutura. A evolução por outro lado é bem mais gradual que nas esferas formais. Talvez até mesmo por contarem com pouca tecnologia e informação à disposição.


Ok, chega de filosofar e vamos começar a aula de marketing informal com o professor Lacarmélio. Se tiver alguma dúvida ou quiser comprar uma revista é só levantar o dedo. O assunto de hoje é estratégia.

Teach me, Master!

Confira trechos especiais da entrevista, onde Lacarmélio desfila suas principais estratégias como ambulante. Os comentários são de Ricardo Veiga, professor de Administração e Marketing da UFMG .

Lacarmélio utiliza conceitos de marketing de forma intuitiva, afirma Ricardo Veiga.

 

Sua prática se assemelha muito aos testes de mercado que empresas realizam quando pretendem lançar um novo produto.

Seu ponto de venda ideal é o engarrafamento, local que ele procura diariamente.

Tanto que quando lança uma nova edição, presta bastante atenção ao feedback dos clientes.

 

Foi a partir da opinião dos leitores, por exemplo, que ele mudou o título de sua última revista.

Lacarmélio nos conta que procura escrever histórias com as quais o público se identifica, pois isso ajuda na aceitação de seu trabalho.

Adequar o conteúdo ao público também é preocupação de grandes negócios. Porém, diferente do método "tentativa e erro" de Lacarmélio, eles realizam grandes investimentos em grupos focais ou em outras formas de pesquisa para tentar prever o resultado e minimizar os custos da produção.

Porém, certas coisas o autor não consegue explicar.

Ele diz ter um tipo de feeling, que o mostra quando o

engarrafamento está bom ou ruim para 

vendas.

Parece que ele, inclusive, desenvolveu teorias para justificar tudo.

A partir da observação de anos, desenvolveu sua própria tática.

Ele corre entre os carros quando o engarrafamento ainda está andando devagar e volta junto com o fluxo, pois assim o motorista tem tempo de notar sua presença, ler sua placa anunciando o produto e decidir se vai comprar ou não (1, 2 e 3 do marketing).

 

Um comportamento curioso notado pelo ambulante é que quando uma pessoa compra, outros motoristas tendem a comprar também.

 

Ricardo comenta sobre o PDV de Lacarmélio e dá algumas dicas para o autor vender mais, como a facilitação do troco e também a distribuição de amostras grátis para fomentar esse estímulo em cascata.

Graças à experiência, ele sabe que o negócio é vender nos túneis quando começa a chover. Até posição do vento ele confere!

Os melhores horários para vender ele também já conhece: de manhã e ao final do dia. Ou seja, quando tem mais engarrafamento.

Um look impecável também ajuda bastante nas vendas. Lacarmélio não sai de casa sem roupa limpa e barba feita.

 

Tem que ter imagem de profissional.

O autor explica que o preço da revista é R$ 3 e que não faz promoção, pois os clientes que compraram pelo preço original podem não gostar de ver outros comprando por menos.

Por fim, Lacarmélio nos contou de sua última aventura: exportar Celton para o Rio de Janeiro.

 

Segundo ele, foi uma forma de fugir da baixa temporada de janeiro em BH, quando quase não há engarrafamentos.

 

Ricardo Veiga comenta essa busca de novos mercados como uma adaptação para sobreviver, uma vez que a venda das revistas são a única fonte de renda do ambulante. 

Considerações finais

Não é fácil ter uma ideia supostamente genial e quebrar a cara depois. Porém, é assim que se faz uma boa pesquisa: pode-se criar hipóteses, mas nunca certezas antes de ir a campo.

 

Felizmente, percebemos a hora de virar a mesa antes do TCC afundar com os nossos egos de publicitário em início de carreira. Agradecemos especialmente ao Warley, por abrir nossos olhos para a expertise das ruas, e ao nosso professor-orientador, Carlos Magno Mendonça, por nos ajudar no redirecionamento do trabalho.

 

Um grande obrigado também a todos os ambulantes que contribuíram com seu tempo e compartilhamento de conhecimento para o nosso projeto.

 

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